Ação artística cartografa pontos de grafite em Maringá

 Ação artística cartografa pontos de grafite em Maringá

A mostra itinerante ‘Deriva’, realizada pelo grafiteiro Nuno Skor, faz parte da exposição ’10+10′ do Maringá.Com. – Foto: Amanda Fahur

Em uma manhã comum de sexta-feira, Mariana passava pelas ruas do centro da cidade despreocupadamente. Em busca de algo atrativo, resolveu visitar o Centro de Ação Cultural, mas o que ela não esperava era que uma simples visita à exposição ‘10+10’ do Maringá.Com resultaria em 2 horas de excursão pelos grafites maringaenses e um bate papo descontraído e inspirador com o artista Nuno Skor.

Como parte da exposição ‘10+10’, Skor ofereceu uma incursão pelos murais de grafite da cidade, denominada ‘Deriva’. O intuito da ação foi de aproximar o grafite à sua essência – a arte urbana em seu habitat natural. Com partida do Centro de Ação Cultural, o CAC, o itinerário passou por cinco pontos da cidade, mostrando desde os grafites mais ‘raiz’ até os trabalhos mais comerciais realizados por Skor. E Mariana, iniciante no mundo do grafite, fez questão de participar.

Para uma demonstração mais literal da arte urbana, um dos pontos do itinerário foram as paredes abandonadas da Rua José do Patrocínio. As obras de estilo ‘bomb’ – graffiti rápido – foram realizados por Skor e outros artistas há aproximadamente 10 anos, um dos primeiros do artista em Maringá. Questionado sobre sua inspiração para as figuras excêntricas e de estilo único Skor afirma que “a parede fala comigo”. A imagem vem e ele a desenvolve em sua tela à céu aberto. O artista ainda relata que foi aprimorando sua técnica com o tempo e aprendendo a utilizar novas ferramentas, resultando em seu atual estilo.

Além da Rua José do Patrocínio, o itinerário apresentou também a Rua Henrique Dias com grafites de grupos de artistas urbanos mais ‘clássicos’, destacando a guerra por território para expressão da arte. “Qualquer representação é artística, independente do estilo, traço ou mensagem” afirma Skor ao demonstrar diferentes representações do grafitti, com artistas distintos, sendo uns mais ‘rua’ que outros – alguns seguem o oldschool com escritas bubble e outros utilizam-se de personagens, mensagens ou reflexões.

No ramo comercial, Skor já realizou diversos trabalhos e o itinerário apresentou dois deles. O primeiro, na Horácio Racanello, é o mural do Shopping Avenida Center. O artista afirma que foi um desafio, já que o cliente queria representar uma história com elementos saindo da parede. “É necessário relacionar o pedido do cliente com suas habilidades e estilo. Compreender o que o cliente precisa e analisar se isso se encaixa na sua sua forma de expressão artística” afirma Skor ao ser categórico e dizer que já recusou algumas propostas pois não se encaixam em sua forma de trabalho.

A ação encerra no mural mais recente de Nuno Skor, realizado na parede do Prever, em frente ao Cemitério Municipal de Maringá. O artista afirma que foi especial realizar o trabalho, já que se trata de um ambiente mais sério e com ‘clima pesado’ como um hospital e cemitério. Com cores vibrantes e traços fortes, característicos de Skor, o artista diz que a melhor parte do projeto foi quando uma paciente o agradeceu pela obra. “Ela me disse que ver meu mural fazia ela se sentir melhor na sua rotina” afirma. As cores tiram os olhares triste do cemitério e atraem para uma obra repleta de vida e significado, mesmo que a obra seja para um empresa que trabalha com a morte.

A mostra atraiu a atenção de estudantes e admiradores que participaram do itinerário. “Resolvi conhecer e acabei vindo parar em um van” afirma Mariana com o caderno de rascunhos e inspirações de Skor em mãos. A jovem de 18 anos ainda diz que deveria fazer mais destes ‘passeios aleatórios’ e ao acaso. “É muito legal conhecer mais sobre arte e técnicas, estava em um momento de bloqueio para desenhar e esse passeio me inspirou bastante” finaliza.

O artista – Nuno Skor nasceu na Angola. O artista de 41 anos teve o primeiro contato com a arte urbana em 1996, quando o estilo ainda era marginalizado e amador. “Não tenho escola de arte nem nada. Minha escola é a rua, é a observação” afirma. Vindo de um país com cenário violento da guerra civil, Skor chegou à Maringá em 2010 e durante os períodos de adaptação foi aprimorando e desenvolvendo sua técnica. Atualmente, é um dos principais nomes do estilo na região, realizando com frequência trabalhos comerciais para empresas e estabelecimentos da cidade. Além disso, Skor já participou de diversas exposições, incluindo a Bienal de São Paulo em 2013.